Críticas e Comentários

NA CASA DE BERNARDA ALBA
PAULO DE TARSO BATISTA LIBÓRIO
Ator, Diretor e Dramaturgo.
Possui graduação em Licenciatura Plena em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras(1977), especialização em História da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul(1983), especialização em Cultura e Arte Barroca pela Universidade Federal de Ouro Preto(1986) e especialização em História das Artes pela Faculdade Música Palestrina(1982).
Professor da Universidade Federal do Piauí e do Instituto de Ciências Jurídicas e Sociais Camillo Filho.


É espantoso ver A Casa de Bernarda Alba.
É dramático espiar Dona Bernarda em sua Casa.
É angustiante encontrar a louca Bernarda e sua gente, na Estação Ferroviária de Teresina, na beira dos Trilhos, sem ir a lugar nenhum. Querendo ir, não pode. Podendo ir, não quer ir.
O Grupo Harém de Teatro nos convida e nos intromete na ariscada intimidade daquela Casa: solene, triste, silenciosa, eloqüente, traiçoeira. A Casa ejacula vida. É fogosa. Escarra morte nas carnes histéricas de suas mulheres. Sacerdotisas infernais. Santas. Demônias. Virgens por obrigação. Prostitutas por vocação. Bernarda e suas Filhas são mártires audaciosas de todas as carências humanas.
Estava eu, na sala de visitas. Noite de um sábado. Uma empregada me recebeu muda.
_ Lá se vêm a muvuca dessas coitadas que Garcia Lorca pariu, na Espanha e Arimatan Martins amamentou, no seio teatral, talentosamente piauiense.
_ Lá se vêm todas tangidas pelos mesmos sentimentos, cambaleando de cabeças erguidas rumo ao calvário do palco: patíbulo de inexplicáveis conversações.
_ Lá se vêm estátuas pulsantes descendo uma escada preta. Só o fole das respirações se ouvia. Silêncio de arrepiar. Ainda meio turvo, consegui ver:
_ BERNARDA (petrificada na agonia interpretativa de Lari Sales) é tensa, severa, madre superiora rabugenta, mãe cruel desse convento maldito.
_ MARIA JOSÉ (caducando dramática em Airton Martins) é um fiapo de gente. Nem sei bem o que é aquilo...Uma viva morta, ou uma morta viva? A velha ZEFA enlouqueceu no pelourinho do tempo. É mãe de Bernarda. É vó das meninas. Malditos frutos do seu ventre.
_ AS FILHAS: Contei cinco. ANGÚSTIAS, MADALENA, AMÉLIA, MARTÍRIO e ADELA são rebentos que espocam na majestática interpretação de Maneco, Tércia, Bid, Fernando e Janaína. Um festival de elegância. Uma erudita postura teatral. Dicção perfeita. Simplicidade de gestos. Generosidade com o público. São donas, essas filhas, de uma pobreza rica. Há um quê de rainha nessas miseráveis. Pobres crianças que engolem o choro atravessado na garganta. Tão nunca amadas que teimam em morrer. Tão mortas que brincam de viver, no coito apressado da irmã caçula: a única que cedeu, por isso morreu.
_ AS CRIADAS: Duas somente. Jamais escravas. Apenas servem. Servem com petulância tanta que se igualam ao sangue de Bernarda.
_ LA PONCIA (articulada na gestualidade de Castro) é exuberante, atrevida, venenosa e falante. Serpenteia na intimidade da desgraça familiar.
_ CRIADA (vivida por Luciano) nem nome tem. Coitada! Personificação do servir anônimo. No silêncio do seu nada, intromete-se em tudo. La Poncia precisa dela para cuspir seus venenos. Essa criada merece nosso olhar especial. Representa todas as domésticas sem vez, sem voz.
Um grito. Bernarda chora sua filhinha. É hora de ir embora. A visita acabou.
Fui e vi que a dramaturgia de Arimatan Martins é austera e lúdica. Um jogo onírico de sensibilidade. Sua encenação é ascensional. Suspensa por guindastes da teatralidade nova. Nada de música de efeito vampiresco. Gostei dessa ausência sonora. Somente o ranger triste da louça feliz de Fátima Campos dançando sobre uma mesa nua, realçada pela iluminação comedida de Assaí Campelo. Nos detalhes do figurino de Bid Lima observa-se logo a fartura do panejamento e as marcas do trapeado, nascido dos dedos mágicos de Luisa, Maria José e Edite.
A Casa de Bernarda Alba tem arquitetura de Emanuel de Andrade. Linhas puras de cenografia enxuta, sem o vexame do decorativismo paia de vitrine barata. Tudo o que se lê no espetáculo vem do teclado iconográfico de Paulo Moura. Tudo o que foi produzido saltita da inteligência administrativa de Francisco Pellé. Tudo que se vê nesse espetáculo saiu do coração teatral do exigente Arimatan Martins. Das que visitei, esta Casa de Bernarda Alba é a mais dramática de todas. Um canto fúnebre ao amor carente. Uma espécie rara de rosa rústica, cujas pétalas são ásperas lixas que nos raspam até sangrar.
O Grupo Harém não é mais um grupo. Tornou-se um universo de talentos. E o que é talento? Tudo o que vem da emoção e plenifica o coração.
A Casa de Bernarda Alba também não é um espetáculo. É, simplesmente, uma casa cheia de Teatro, abarrotada de qualidade suprema. Tem que ser tombada como patrimônio artístico nacional.
Veja Bernarda. E me diga se estou mentindo.

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